
EU, RIO...
“"O Rio Ardila configurou e é configurado por um território físico quase semi-árido que ora nos deslumbra com planícies infinitas ou com penhascos nus e luzidios que se abandonam de forma abrupta sobre o fio de água. As margens de cascalho grosso, depressa nos escondem pelos estevais que guardam os sobreiros e azinheiras – quase escassos. Depois, manchas de olival, ou folhas de seara, anunciam a existência de um monte ou de qualquer agregado populacional. Primeiro, parecem silenciosos – estes espaços. Depois, a pouco e pouco, ouve-se a alma das gentes mais do que a fala. De feições trigueiras, os homens e as mulheres das margens do Rio Ardila transportam um imaginário particular moldado pela interioridade e ainda pela estrutura fundiária geradora de relações de produção específicas. Esta relação com o espaço subsiste e sobrevive no diálogo interior que cada um estabelece consigo próprio, e que se exprime de forma discreta nos afectos, na dolência do canto, nas emoções contidas ou no grito fundido e perdido no céu quando qualquer dor ultrapassa as barreiras de tudo. Esta é agente do Rio Ardila, do lado de cá, que se infiltra no Alentejo, a maior região de Portugal e que ocupa 30% do território nacional. Mas no lado de Espanha, onde o Ardila nasce, as diferenças parecem não ser significativas para quem, em procura da narrativa do Rio, percorre los pueblos que se aninham para além da mesma paisagem vegetal e animal, fortemente perfumada pelas estevas e coelho bravo. Uma expressão mais viva das gentes de Espanha, um maior bulício e colorido nos povos, poderá ter a ver com tantas coisas – que só o continuo desta caminhada pelo Rio e as suas estórias nos poderá revelar. Contudo, quer deste lado do Rio quer do lado de Espanha, o Rio, agora livre e antes fronteira, grita nas noites de lua cheia pela gentes que o possuíram : lavando, pescando e amando. Mas mais veloz que o curso do Rio é o curso da vida que pulsa nas cidades grandes e que atraem os povos e os pueblos. Há gente a menos neste território. Tão pouca que o peso das estórias dificilmente caberá no nosso peito sem que o mesmo doa de ausência. Mas no Rio Ardila, no lado de cá, no lado de lá, a festa é permanente. O nosso percurso, que é o percurso do Rio, só teve tanto sentido porque a fé esteve presente em cada romaria. Por isso, o Rio Ardila há-de correr para o seu destino, tal como nós, embrulhados na mesma fome e na mesma fé existenciais. “"
Antónia "Moura"
a quem eu aproveito para deixar um abraçinho.
Onde quer que estejas, ao longo deste belo percurso, um grande beijo.
3 comentários:
Belo apontamento, bom texto.
Serenidade. Uma alentejana que o escreveu?
Mais uma descoberta!
Obrigado!
Beijinhos! :-)
Olá Ric,
Fico feliz por teres gostado.
Este post deu-me muito gozo, é uma longa história.
Nem sei se não farei um post acerca da história deste reencontro passados mais de 25 anos numa caixa de comentários de um blog.
Entretanto hoje deixei um comentário no teu blog e eis que encontrei um comentário da mesma pessoa que me levou a Antónia "Moura".
O mundo é realmente pequeno.
Mais desenvolvimentos à hora os estreitinhos, se for caso disso.
Beijinho :)
Deuses!... O mundo é mesmo minúsculo!... Impressionante!
:-)
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