Lá no cimo daquele Monte temos a Igreja, a Farmácia, o Mercado, a Drogaria, a Padaria, a costureira, o amolador, o carpinteiro e o último sapateiro.
Todos o conhecem por Tio Luís, o sapateiro. Homem que carrega no rosto a experiência e nas mãos as marcas de uma vida inteira a pensar no bem calçar dos outros.
Costuma dizer que anda com as mãos aonde os outros metem os pés.
Desde miúda que passo à porta do sapateiro e a imagem é sempre a mesma. Um sapato na soleira da porta e lá dentro, o Tio Luís sentado a trabalhar com o seu avental de estimação.
Este homem é mestre na arte de fazer sapatos, por isso, não me espanta que consiga sempre
dar-lhes um ar novo. O sapato agradece se passar pelas suas mãos.
Certa vez, remendou-me umas botas em minutos para eu ir de viagem mas disse-me que voltasse lá depois para ele as coser melhor, 10 anos depois ainda resistem impecavelmente remendadas. Desde miúda sempre quis ser eu a levar os sapatos da família toda ao sapateiro, um destes dias descobri que é o meu nome que ele escreve no papel que cola por baixo dos sapatos de toda a família, mesmo que não seja eu a levá-los.
Ontem visitei-o, não tinha sapatos para reparar, fui levar-lhe um beijinho e tirar-lhe uma fotografia.
Bem-haja meu querido amigo.